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O que é de todos é de ninguém

(01.02.12)

Por Gerson Kauer,
chargista do Espaço Vital.

Há alguns anos desenhei uma mesa de trabalho. Um recorte sinuoso permitia acomodação de quatro pessoas formando uma democrática ilha de trabalho, onde o chefe e os colaboradores estariam em constante interação.
 
O desenho da mesa contemplava espaço para reuniões rápidas de discussão dos trabalhos em andamento, bastando para isso deslocar um pouco as cadeiras para o "espaço de todos". Haviam os nichos particulares, os espaços de cada um, mas ali no "espaço de todos" era a essência democrática da mesa, na minha concepção.

Aos poucos fui percebendo que o espaço democrático começava a ser ocupado por papeis, catálogos, revistas e materiais que serviram de pesquisa e esboço para trabalhos já finalizados. Na correria do dia a dia, o sentimento de urgência ia fazendo com que o descarte e a organização dos materiais fossem sendo protelados, acumulando um depósito na área de todos. Ela começava a se tornar a "área de ninguém".

Tive que promover uma organização e para minha surpresa até materiais meus estavam ali. Fiquei incomodado, como eu mesmo ajudava a burlar uma proposta que eu acreditava, que parecia obvia:  "A área é de todos então também é minha, vamos cuidar! "

Transportando esta percepção para a sociedade conseguimos entender atitudes como depredações, lixo fora do lixo, apropriações  e corrupção. Está tudo na raiz do "é de todos, então é de ninguém". 

Interessante que este sentimento induz a isenção de responsabilidade em alguns casos e interesse em outros.

Exemplo de isenção de responsabilidade: um amigo presenciou um sujeito com seu carro parado em uma estrada que dá acesso ao morro que é cartão postal da minha cidade (Montenegro, RS), área linda, mata nativa. O "cidadão" tirava sacolas de lixo do seu carro e as jogava no terreno ao lado da estrada. Meu amigo, perplexo perguntou:
 
 - Por que você está jogando lixo aí, é uma área natural, pode ser até terreno de alguém, além do mais vão ficar plásticos e lixo espalhados".
 
 Sabem o que meu amigo ouviu como resposta?
 
- Ah pois é! Cada um com seus problemas!...

Interessante que este mesmo terreno pode ser visto como "de ninguém" e ser invadido ou apropriado por um outro "cidadão" que tenha a visão focada no interesse próprio. Daí do "cada um com seus problemas" partimos para o "cada um no seu quadrado".

Um dos primeiros fatos marcantes do ano é a “reintegração” da ocupação Pinheirinho, sob aparato de guerra contra os ocupantes da área. Segundo consta, a área era de alguém, fazia parte da fazenda de uma família de alemães que foram mortos em uma chacina em 1969. Como não tinham parentes a área passou a ser do Estado de São Paulo para beneficiar uma instituição universitária.
 
Ou seja, era de alguém, passou a ser de todos, portanto de ninguém; alguém se interessou e com jeitinho passou a ser de alguém de novo. Ficou abandonada por anos, dando a impressão de ser de ninguém, alguém invadiu e o local virou uma comunidade. Agora alguém que é dono expulsa com violência os ´Zés Ninguéns. Trágico, triste e completamente injusto.

A grande maioria das pessoas toma a "esperteza", o "jeitinho" e o "não dá nada" como valores de vida e os aplica no seu cotidiano, arrebanhando pequenas vantagens - e se escandaliza quando seus similares ricos e poderosos arrebanham grandes vantagens.
 
Ao jogar um papel pela janela do seu confortável e limpo carro, o motorista não vê sua consciência se afastando no retrovisor...

Pra finalizar, uma malandragem inconsciente: coloquialmente a frase que dá título a este texto é falada: "se é de todos NÃO é de ninguém" em vez de "se é de todos É de ninguém".
 
Ora, se negamos duas vezes, negamos a negação; então se "não é de ninguém" acaba sendo de alguém, do esperto que chegar primeiro.

kauer@kauer.com.br

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