
![]() |
Por Gerson Kauer,
chargista do Espaço Vital.
Há alguns anos desenhei uma mesa de trabalho. Um recorte sinuoso permitia acomodação de quatro pessoas formando uma democrática ilha de trabalho, onde o chefe e os colaboradores estariam em constante interação.
O desenho da mesa contemplava espaço para reuniões rápidas de discussão dos trabalhos em andamento, bastando para isso deslocar um pouco as cadeiras para o "espaço de todos". Haviam os nichos particulares, os espaços de cada um, mas ali no "espaço de todos" era a essência democrática da mesa, na minha concepção.
Aos poucos fui percebendo que o espaço democrático começava a ser ocupado por papeis, catálogos, revistas e materiais que serviram de pesquisa e esboço para trabalhos já finalizados. Na correria do dia a dia, o sentimento de urgência ia fazendo com que o descarte e a organização dos materiais fossem sendo protelados, acumulando um depósito na área de todos. Ela começava a se tornar a "área de ninguém".
Tive que promover uma organização e para minha surpresa até materiais meus estavam ali. Fiquei incomodado, como eu mesmo ajudava a burlar uma proposta que eu acreditava, que parecia obvia: "A área é de todos então também é minha, vamos cuidar! "
Transportando esta percepção para a sociedade conseguimos entender atitudes como depredações, lixo fora do lixo, apropriações e corrupção. Está tudo na raiz do "é de todos, então é de ninguém".
Interessante que este sentimento induz a isenção de responsabilidade em alguns casos e interesse em outros.
Exemplo de isenção de responsabilidade: um amigo presenciou um sujeito com seu carro parado em uma estrada que dá acesso ao morro que é cartão postal da minha cidade (Montenegro, RS), área linda, mata nativa. O "cidadão" tirava sacolas de lixo do seu carro e as jogava no terreno ao lado da estrada. Meu amigo, perplexo perguntou:
- Por que você está jogando lixo aí, é uma área natural, pode ser até terreno de alguém, além do mais vão ficar plásticos e lixo espalhados".
Sabem o que meu amigo ouviu como resposta?
- Ah pois é! Cada um com seus problemas!...
Interessante que este mesmo terreno pode ser visto como "de ninguém" e ser invadido ou apropriado por um outro "cidadão" que tenha a visão focada no interesse próprio. Daí do "cada um com seus problemas" partimos para o "cada um no seu quadrado".
Um dos primeiros fatos marcantes do ano é a “reintegração” da ocupação Pinheirinho, sob aparato de guerra contra os ocupantes da área. Segundo consta, a área era de alguém, fazia parte da fazenda de uma família de alemães que foram mortos em uma chacina em 1969. Como não tinham parentes a área passou a ser do Estado de São Paulo para beneficiar uma instituição universitária.
Ou seja, era de alguém, passou a ser de todos, portanto de ninguém; alguém se interessou e com jeitinho passou a ser de alguém de novo. Ficou abandonada por anos, dando a impressão de ser de ninguém, alguém invadiu e o local virou uma comunidade. Agora alguém que é dono expulsa com violência os ´Zés Ninguéns. Trágico, triste e completamente injusto.
A grande maioria das pessoas toma a "esperteza", o "jeitinho" e o "não dá nada" como valores de vida e os aplica no seu cotidiano, arrebanhando pequenas vantagens - e se escandaliza quando seus similares ricos e poderosos arrebanham grandes vantagens.
Ao jogar um papel pela janela do seu confortável e limpo carro, o motorista não vê sua consciência se afastando no retrovisor...
Pra finalizar, uma malandragem inconsciente: coloquialmente a frase que dá título a este texto é falada: "se é de todos NÃO é de ninguém" em vez de "se é de todos É de ninguém".
Ora, se negamos duas vezes, negamos a negação; então se "não é de ninguém" acaba sendo de alguém, do esperto que chegar primeiro.
kauer@kauer.com.br
