
| Charge de Gerson Kauer |
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Por Afif Simões Neto,
juiz de Direito (RS)
Tinha passagem livre com o Perciliano Rocha gente esnobe, toda metida a intelectual. Segundo ele, seriam uns infarentos, desapetrechados de humildade e outros quejandos.
Um sujeito bem próximo da rudeza primitiva, Perciliano conseguiu varar apenas as primeiras folhas da cartilha “Queres Ler”. O que aprendeu depois foi costeando o aramado que separa os que mal assinam o nome dos que forcejam para acolherar as pretas ao correr da pauta, o que não o impedia de discutir parelho com os graduados do cafezinho desde o voto distrital até os últimos traquejos da doma racional.
Mas do que gostava mesmo o Perciliano era de acomodar a dobradiça dos cotovelos no pano verde dos carteados, de farrear na zona até dar câimbra nas panturrilhas, e corrida de cavalo em cancha reta, sem qualquer ordem de preferência na observância dessas vontades mundanas.
Vivia o bom Perciliano da renda proporcionada pelo hotel herdado da família, único bem de raiz que se safou garreado da unha dos agiotas.
Pois não é que veio de Pelotas um grupo teatral recém iniciado na secular arte de representar, e se hospedou no alojamento do homem, não só por ser a espelunca menos insalubre da cidade como por ficar perto do local destinado aos espetáculos públicos patrocinados pela prefeitura. A apresentação seria dali a dois dias, tempo de que dispunham os atores para ensaiar como manda o figurino a peça ´Hamlet´, uma tragédia shakespeariana escrita entre 1599 e 1601.
Na segunda tarde dos treinamentos cênicos, e um solaço de lagartão jorrar suor no entreperna, se chegou pra vizinhança do palco o Perciliano, chapéu panamá desabado pro lado de tirar leite e desconfiado que nem cego cortando o cabelo. Queria, na verdade, fazer um agrado à gurizada dos dramas e comédias, que esgotara as vagas no hotelzinho sempre carente de viajantes, e o melhor da história, com pagamento antecipado, ao contado, tudo na boca da botija.
De ´Hamlet´ e do tal tio dele, o Cláudio, que - segundo a lenda - teria corneado o velho, nunca ouvira falar nada pela boca do povinho das carpetas e das gurias difamadas.
Terminado o ensaio, desce do palco em trote miúdo o líder do grupo, um rapazote branquela, todo jeitoso, punhos de renda e tomado de mesuras pelo anfitrião.
Pergunta delicadamente, puxando assunto que pretendia fosse duradouro:
- Seu Perciliano, que honraria tê-lo por aqui, prestigiando os nossos preparativos. Passou-me o seu semblante taciturno a indelével impressão de que o senhor lê bastante?
E a resposta veio na lata, misturada à aflição pelo palavrório desconhecido:
- Só se eu fosse p...
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